CULTURA

Projeto “Álbum de Família”

1Preâmbulo

2Arquivos, bibliotecas e museus são Instituições de Memória (Dempsey 2000) que têm como denominador comum das suas missões a preservação, o tratamento e a difusão da memória, do património e da cultura das sociedades onde estão inseridas. Neste contexto, os conteúdos informativos dos seus fundos documentais reportam-se a conteúdos comuns, e a sua pertença a cada um dos acervos dessas instituições é determinada, nem sempre sem polémica, pelas diferentes tipologias documentais.

3Embora estes acervos tenham características próprias e sejam alvo de procedimentos específicos, o que têm em comum tem motivado desafios em torno da interoperabilidade dos seus sistemas de informação e a conceção de projetos em cooperação que sublinham o que o conteúdo informativo tem de semelhante e a sua sobreposição face à desagregação imposta pela diferença tipológica.

  • 1 O Património Cultural Imaterial, assente nas memórias que cada pessoa carrega em si, está limitado (…)

4Os conteúdos informativos comuns aos acervos do Arquivo, da Biblioteca e do Museu são o catalisador que, no “Álbum de Família”, envolve estes serviços da Câmara Municipal de Palmela no resgate, urgente1, de fotografias analógicas anteriores ao ano 2000, que transportam consigo a memória e a história da comunidade.

5Contexto

6Considerando a identidade como um conjunto de elementos próprios, exclusivos e diferenciadores face aos outros, compreende-se o papel estruturante e imprescindível que a memória reclama na sua constituição.

7A memória individual, composta por lembranças vividas pelo indivíduo na sua vida pessoal, contextualiza-se, apoia-se e confunde-se com lembranças impessoais, de grupo, pertencentes à memória coletiva (Halbwachs 1990, 53-54).

8Estruturante da identidade pessoal, a memória individual é envolvida pela memória coletiva que, sendo partilhada por vários indivíduos, lhes imprime marcas identitárias comuns. A identidade coletiva, enraizada na memória coletiva onde cada um reconhece no outro características comuns, atua como agente agregador do conjunto constituído pelos indivíduos que a ela pertencem. É um elemento fundamental para a coesão social que permite a convergência de interesses, de necessidades e de pontos de vista que se consubstanciam na construção do bem comum.

9Considerando, assim, a importância da memória coletiva para a vida de uma comunidade, percebe-se que o modo como este elemento lança raízes no passado, na história, ultrapassa o tempo vivido por cada um dos seus elementos. Neste sentido, o conteúdo da memória coletiva consubstancia-se em lembranças compartilhadas, não experienciadas individualmente, transmitidas intergeracionalmente por via oral, através de textos ou de imagens. Neste caso, há que realçar a fotografia percebida como elemento capaz de cap- tar e difundir a imagem de um segmento da realidade de um modo credível (Felizardo e Samain 2007, 210). Este registo do passado não pode deixar de aproximar a fotografia da memória tal como esta, está sujeita a escolhas, manipulações, silêncios e a leituras dife- renciadas (Ibidem). Mas, apesar disso, considerando que “no processo de rememoração da lembrança, da memória propriamente dita, nós nos valemos das imagens das coisas” (Felizardo e Samain 2007, 212), não podemos deixar de sublinhar a importância da fotografia nesse processo.

10Por outro lado, com a massificação da fotografia, passa a ser permitido às famílias a construção de um repositório de memórias, de álbuns de família, de fragmentos visíveis do passado do grupo de pertença; o seu conhecimento é um elemento que integra a memória individual, partilhado com outros elementos do grupo, constituindo deste modo uma memória familiar integradora. “O álbum de família exprime a verdade da recordação social. Nada se parece menos com a busca artística do tempo perdido do que estas apresentações comentadas das fotografias de família, ritos de integração a que a família sujeita os seus novos membros. As imagens do passado dispostas em ordem cronológica, ‘ordem das estações’ da memória social, evocam e transmitem a recordação dos acontecimentos que merecem ser conservados porque o grupo vê um factor de unificação nos monumentos da sua unidade passada ou, o que é equivalente, porque retém do seu passado as confirmações da sua unidade presente” (Pierre Bourdieu, cit. em Felizardo e Samain 2007, 213).

11O lento folhear do álbum de família, ritmado por comentários que contextualizam as imagens, é uma passagem de testemunhos, de lembranças da memória coletiva que transmite um denominador comum ao modo como cada um dos membros do grupo apreende o mundo. Aqui sustentada, a identidade coletiva é um fator de integração e de mobilização dos vários elementos que a constituem. É também um elemento catalisador na concretização de objetivos ligados a interesses comuns que lançam raízes em valores partilhados.

12Todavia, não obstante essa ubiquidade do coletivo em cada um dos indivíduos, a memória comum assenta na particularidade das estórias individuais e, por isso, é também a singularidade do percurso individual que queremos resgatar através deste projeto. Nesta perspetiva, o trabalho de recolha da memória oral vem abrir lugar ao indivíduo enquanto agente da história porque permite, por um lado, extrair parte das histórias individuais que contribuem para uma cronologia maior e, por outro, identificar e compreender o rumo dos acontecimentos a partir de vários pontos de vista. Falamos de um espaço de participação onde o anonimato é comutado por relatos na primeira pessoa, numa construção democrática da história e da memória coletiva. “Determinados objetos, lugares y manifestaciones, patrimoniales o no, se relacionan intensamente con la biografía de los individuos y con sus interacciones” (Prats 2005, 25).

13Trata-se, no fundo, da descoberta dos caminhos individuais e da voz de cada um na construção da história da comunidade, num processo de valorização da pessoa. Recorremos ao pensamento de Prats para reivindicar este foco: “El principal camino para convertir al patrimonio local en un instrumento abierto y de futuro pasa básicamente, a mi entender, por dar prioridad absoluta al capital humano: las personas antes que las piedras” (Prats 2005, 28).

14No caso específico deste projeto, é de sublinhar as conversas que se desenrolam ao redor de uma fotografia. À identificação dos nomes das pessoas e dos locais, sucede-se o contexto social mais amplo com a evocação de outras pessoas e acontecimentos, num folhear de memórias, muitas nunca antes evocadas publicamente. Estas memórias ditas reclamam também silêncios. O silêncio das fotografias não comentadas revela o que a comunidade não quer lembrar ou esqueceu. São estas estórias, dos ditos e dos não ditos, que queremos registar num cruzamento disciplinar que utiliza a fotografia como epígrafe.

15Origem, características e objetivos

16O município de Palmela reforça, com o “Álbum de Família”, a importância dada à relação com a comunidade e ao registo das suas histórias individuais e memórias, como contributos para a história coletiva do concelho. O Fundo Local da Biblioteca Municipal, que contém centenas de monografias e milhares de artigos disponíveis online; o Arquivo de Fontes Orais do Museu Municipal, criado em 2003 e contando atualmente com mais de uma centena de entrevistas; o ciclo das “Conversas de Poial”, iniciado em 2009, que recolheu memórias dos habitantes do centro histórico de Palmela, com o objetivo de melhor compreender o território para a definição de uma estratégia de ação plural e sustentável; e o Projeto “Uma Imagem, Mil Memórias”, iniciado em 2011 pelo Arquivo com o objetivo de recolher o património fotográfico do concelho para digitalização, conservação e divulgação das imagens cedidas por diversas entidades (munícipes, freguesias, associações, etc.), que conta com cerca de seis mil imagens digitalizadas – são exemplos de trabalho já desenvolvido.

17Na continuidade deste trabalho, o Projeto “Álbum de Família” surge em 2016 congregando a Biblioteca, o Arquivo e o Museu e, no caso da freguesia de Palmela, também o Gabinete de Recuperação do Centro Histórico.

18O “Álbum de Família” caracteriza-se pela realização de sessões temáticas num local propício à reunião com a comunidade, onde são projetadas fotografias para que sejam comentadas pelos participantes, identificando locais, eventos e pessoas retratadas. Estas fotografias são ainda um pretexto para o relato de situações conexas, memórias e evocação de outros elementos da comunidade. A sua exposição pública permite quebrar silêncios que algumas imagens encerram, de corrigir e acrescentar memórias e abrir caminho à expressão e registo de diferentes interpretações que olhares diversos são passíveis de suscitar.

19A seleção de fotografias para projeção tem como recurso as imagens pertencentes ao fundo do Arquivo Municipal e aquelas que vão sendo cedidas por particulares. Esta colaboração foi antecedida e acompanhada por um trabalho de sensibilização e mobilização junto da comunidade, de onde resultam o empréstimo de fotografias para digitalização, a recolha de testemunhos com elas relacionados, a participação nas sessões realizadas e uma aproximação maior entre a comunidade e a autarquia.

20Destacamos como objetivos estruturantes do “Álbum de Família”, a divulgação e o aumento da coleção de imagens do município; a compilação de informação sobre as fotografias a partir da recolha do património imaterial associado; a promoção da identidade coletiva local e da coesão social do território; e a criação de momentos de encontro e de convívio entre os participantes e entre estes e a autarquia.

21Inicialmente, pensado apenas para o centro histórico da vila de Palmela, onde a comunidade mais idosa integra frequentemente iniciativas ligadas à história local e à memória, havendo até grupos informais constituídos, cedo se percebeu que deveria contemplar as restantes freguesias do concelho.

22Sessões do “Álbum de Família” nas freguesias do concelho

23Em 2016, entre maio e julho, foram realizadas quatro sessões na freguesia de Palmela (Fig. 1). Os temas foram Festas e Comemorações, Crianças, Trabalho e Anos 80/90 do século XX. As três primeiras sessões decorreram na Biblioteca Municipal, e a última no terraço do Mercado Municipal. Foram recolhidas 297 fotografias de 11 munícipes e as sessões tiveram 70 participantes.

Primeira sessão do “Álbum de Família” na freguesia de Palmela: projeção de imagens e intervenção do público.

Imagem: Câmara Municipal de Palmela.

24No ano seguinte, na Biblioteca Municipal em Pinhal Novo, foram realizadas quatro sessões, que decorreram entre fevereiro e abril. Os temas foram Caminhosdeferro, Origens, Ocios e Movimento Associativo. Foram recolhidas 285 fotografias (a que acresce o espólio digital da Junta de Freguesia) cedidas por 15 munícipes e as sessões tiveram cerca de 50 participantes.

25Em Pinhal Novo procurou-se também seguir outras abordagens que passaram pela participação de interlocutores junto à comunidade e pela realização no Mercado Municipal, em dois sábados consecutivos, de sessões de divulgação e digitalização (Fig. 2) – foram digitalizadas apenas quatro fotografias; todavia, sublinha-se a riqueza do contacto com a população e a curiosidade desta em relação ao Projeto.

Image 1000000000000392000001FCC5933428960768BC.pngSessão do “Álbum de Família” na freguesia de Pinhal Novo: projeção de imagens e intervenção do público.

Imagem: Câmara Municipal de Palmela.

26Em 2018 estivemos em Quinta do Anjo. Foram realizadas quatro sessões, que decorreram entre abril e julho (Fig. 3). Os temas foram Quinta do Anjo de Outros Tempos, Ocios, Festas e Movimento Associativo e Música. Foram recolhidas 1669 fotografias cedidas por 16 munícipes e as sessões tiveram cerca de 160 participantes.

27Em Quinta do Anjo contámos com a colaboração do movimento associativo na cedência de instalações e apoio logístico, tendo as sessões decorrido na Sociedade de Instrução Musical. No que diz respeito à recolha de fotografias, tivemos a colaboração da investigadora Cecília Matos, que desenvolve há já algum tempo trabalho ao nível de história local.

28Finalmente, em 2019, estivemos na quarta freguesia do concelho de Palmela, a União de Freguesias de Poceirão e Marateca. Realizámos quatro sessões no mês de maio. Devido à dimensão e às características desta freguesia, duas sessões foram realizadas em Poceirão (uma na Junta de Freguesia e outra no Centro Cultural de Poceirão) e duas em Águas de Moura, no espaço multiusos da Junta de Freguesia (Fig. 4 e 5). As fotos exibidas não se subordinaram a um tema específico. Na recolha de fotografias contámos com a colaboração da Junta de Freguesia na cedência de instalações e apoio logístico, de vários interlocutores locais particulares e de duas IPSS. Foram digitalizadas 413 fotografias cedidas por 15 munícipes e as sessões contaram com cerca de 60 participantes.

Image 100000000000058800000332C425B3CAE564C6A7.pngSessão do “Álbum de Família” na freguesia de Poceirão e Marateca: projeção de imagens e intervenção do público.

Imagem: Câmara Municipal de Palmela.

Sessão do “Álbum de Família” na freguesia de Poceirão e Marateca: projeção de imagens e intervenção do público.

Imagem: Câmara Municipal de Palmela.

29Conclusão

30O projeto “Álbum de Família” tem mobilizado a população das diferentes freguesias do município. Afigura-se-nos que esta relação próxima da comunidade com o projeto assenta, sobretudo, nos momentos de encontro que permitem, em comunhão, revisitar o passado e as pessoas que dele fizeram parte. Estes encontros dão também lugar à valorização do papel de cada um no trajeto coletivo, pois a sua presença e dos seus familiares, nas fotografias projetadas publicamente, são prova inequívoca desta pertença ao lugar. Estas sessões, ao exporem as fotografias a outros olhares, também possibilitam a compreensão da subjetividade dos testemunhos que acompanham as fotografias no momento da sua recolha.

31Dada a extensão geográfica do concelho, as memórias relatadas e retratadas podem ser muito díspares: a vida do dia-a-dia, a escola, as bandas de música, os teatros, as festas e romarias, mas também o trabalho em duras condições, a violência, a perda, a dor… o que nos permite abarcar as várias dimensões do coletivo.

32Embora não exclua nenhuma faixa etária, a população idosa cedo se assumiu como o segmento principal do público do projeto. Durante as sessões, a centralidade é dada às suas vidas e ao modo como veem e leem o mundo. Este movimento centrípeto ocorre principalmente em dois momentos: primeiro, quando o “Álbum de Família” resgata as imagens e as memórias a elas associadas e, posteriormente, quando estes elementos tratados se assumem como fontes capazes de resgatar memórias silenciadas ou desconhecidas, possibilitando a construção de um discurso historiográfico inclusivo. Ambos os momentos, o primeiro vivenciado e o segundo intuído, são fatores que contribuem para a auto-estima desta população.

33É neste cenário, onde a memória e a identidade coletivas são elementos estruturantes da coesão social, que colocamos o nosso “Álbum de Família”.

Fuente de la Nota: Projeto “Álbum de Família”

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